papo prosaico: você conhece o que você come?

papo há um tempo, observo as prateleiras dos supermercados, e uma coisa que me deixa sempre espantado é a quantidade de produtos transgênicos existentes em suas gôndolas. sim, eles estão lá, disponíveis e com um leve escancaro aos nossos olhos. uma triste realidade: a maior parte das pessoas não percebe e as que o fazem, não muito se preocupam. os transgênicos estão por aí há pelo menos 18 anos. eles são organismos geneticamente modificados que recebem uma ou mais sequências de dna de outra espécie em seu código genético.

no entanto, quando trata-se de alimentação, as coisas ficam um pouco diferentes. um exemplo fácil de ser compreendido seria uma semente de milho, que tem o seu código genético alterado através da inserção de gene de outro organismo, geralmente bactérias, para que a semente seja imune aos pesticidas ou a insetos.

todo transgênico é um organismo geneticamente modificado – também conhecidos como ogms -, mas os especialistas alertam que nem todos os ogms são transgênicos. isso se dá porque eles nem sempre recebem material genético de outra ou mesmo de sua própria espécie, mas ainda assim tem em seu organismo alguma alteração genética, alguma manipulação científica. procuramos uma profissional para sanar nossas dúvidas acerca do assunto e, dentre várias coisas que ela simplifica pra gente, está a da diferenciação dos transgênicos com os ogms: no final das contas, tudo farinha do mesmo saco, pelo motivo de não se saber exatamente seus efeitos sobre os organismos humanos.

é a mesma coisa que aconteceu com os pesticidas, que hoje  são conhecidos como defensivos. o nome transgênico já está manchado, por conta da extrema midiatização de seus possíveis malefícios, então a saída é ir comendo pelas beiradas, abandonar o foco principal.

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no brasil, a legislação vigente (decreto federal 4.680/2003 e portaria 2.658/2003 do ministério da justiça) obriga o setor industrial a informar a utilização de organismos geneticamente modificados em suas produções. no entanto, por extrema falta de fiscalização e de órgãos reguladores mais ativos, apenas as grandes companhias é que atendem ao apelo legal.

algumas empresas, e infelizmente com o apoio de parlamentares ligados ao agronegócio nas duas casas do congresso, tentam recuar neste aspecto. e o problema dos transgênicos na alimentação levantam algumas grandes questões hoje: a primeira, é a monopolização da comida; empresas como a multinacional monsanto, por exemplo, que já é dona da maior parte das sementes que existem no mercado (e estamos falando de cereais, frutas, hortaliças, etc), tendem a destruir os pequenos agricultores: eles ficam em desvantagem por conta das altas produções dessas empresas, devido à resistência aos insetos ou pragas, e pela venda a baixo custo, propiciada pela produção em escala.

outra questão, cabeluda e perigosa, é a imprecisão do que realmente os alimentos transgênicos podem fazer no nosso corpo. os riscos são inúmeros, mas as pesquisas com comprovações científicas têm um número reduzido. as grandes companhias não tem interesse algum que este tipo de informação chegue ao conhecimento público. conversamos com a bióloga tassiana santos e, dentre outras questões, debatemos alimentação orgânica e familiar, e um pouco do mistério envolto no assunto transgênico. mais um papo prosaico para vocês!

papo prosaico entrevista a bióloga tassiana santos

cozinha prosaica: qual a diferença real entre os transgênicos e os ogms? é possível diferenciar bem um do outro? tassiana santos: diferenciar quando o produto está no mercado é difícil, a gente pode desconfiar. por isso existe a regra de colocar um t num triângulo amarelo em embalagens. tomates que duram dias fora da geladeira, alfaces idem, banana com a casca totalmente amarela, podem ter sido modificadas ou terem sido expostas a pesticidas. alguns órgãos do governo, incluindo a embrapa e a emater, dão uma certificação de produto orgânico aos produtores, para que saibamos a origem do produto, pois diferenciá-los no mercado é difícil. é possível ter certeza que é modificado geneticamente quando a gente planta o alimento e ele não brota ou não dá flor até a segunda geração da planta.

cozinhap: a pior “coisa” sobre os transgênicos é não ter a certeza de o que exatamente de ruim eles fazem para o nosso corpo. já existem comprovações de algum desses malefícios?
tassianas: existem suspeitas sim, mas ninguém financia pesquisas assim pois grandes empresas, grandes mesmo, estão por trás disso. ou as empresas pesquisam e não divulgam as conclusões. a moral toda dos transgênicos é colocar na planta uma informação a mais em seus genes pra que ela seja economicamente mais produtiva, e geralmente é. por exemplo, a resistência aos venenos. tu aplica o veneno na lavoura, ele mata todas s plantas, todos os matos, pra que o produtor economize na limpeza da roça. o veneno só não mata a planta modificada, pois ela tem o gene que resiste ao veneno. as duas coisas são casadas, sabe? suponhamos que o transgênico em si não faça mal, o que é pouco provável, na verdade. ainda assim, o tezinho na embalagem tá te dando informação a mais e assustadora: esse alimento levou muito veneno até chegar à tua mesa…

cozinhap: sobre a regulamentação em vigência. algumas reportagens que muita empresa ainda resiste aos tezinhos, mesmo quando sua produção é feita a partir de produtos transgênicos. muitos alegam que é tanto processo para se chegar no produto final que mesmo se o produto principal e bruto causasse realmente problemas, seria mínimo o risco deste problema chegar ao produto final. o que você tem a dizer sobre isso?
tassianas: eu diria que todo processo afeta o produto final. isso é óbvio e é óbvio pras empresas também. elas são tão cientes de que modificar um alimento é danoso que não querem expor em suas embalagens os tezinhos. elas tem a consciência de que é uma propaganda contra.

cozinhap: sobre o fato da legislação em vigência não punir quem omite a rotulação, ou de as penalidades serem insignificantes dado o tamanho das companhias, qual sua opinião?
tassianas: eu acho que isso é corrupção. O governo trabalha a favor dessas companhias, elas tem aliados políticos em todas as esferas. O feijão, a partir do ano que vem, vai passar a ser produzido como transgênico. não há preocupação em se estabelecer normas e multas, nem haverá enquanto as empresas comprarem os legisladores, políticos em geral, etc. um decreto que prevê multa sem fiscalização não quer dizer muita coisa…

cozinhap: conte um pouco sobre o processo de transgênese. ele é feito por que tipo de profissionais?
tassianas: geralmente é feito por profissionais da biotecnologia ou engenharia genética. gene, cromossomos e dna são os nomes que se dão para estruturas. o processo dos transgênicos acontece no nível de gene, que estão agrupados a nível de cromossomos. os genes são partes do dna que expressam algo no organismo. vou fazer uma analogia: imagina um novelo de lã, dessas de fazer tricô. isso é um cromossomo. agora, imagina que vem uma pessoa, laça o dedo em um desses fios e puxa, de modo que fica esse fio pendurado, saliente, algo assim. aí, a pessoa faz isso em vários fios, fazendo com que partes desses fios de lã se separem um pouco do novelo todo. esses fios são os genes. a gente diz que esses genes são genes expressivos. trocando em miúdos, eles tem utilidade pro ser, exemplo: regulam teu sistema imunológico, a cor do teu cabelo, os hormônios que são liberados do teu corpo… tudo isso porque tem proteínas que “lêem” esses pedaços de fios, os genes, e executam seus comandos. os fios lá do meio do novelo não expressam nada, pois as proteínas não tem acesso a eles. o processo de transgenia é mais ou menos como identificar qual desses fios, ou genes, em um ser têm a característica que tu quer, e encaixar ele no cromossomo, ou novelo, do outro ser. é como fazer um remendo. os caras descobriram que tem uma bactéria que não morre com o veneno deles. eles vão fazendo testes até achar o pedaço que tem esse gene, isolam ele e o manipulam pra entrar nos genes do milho, da soja, etc.

cozinhap: transformando esse alimento/grão em um outro, que seja mais resistente a um veneno ou bactéria, qual o tipo de dano que ele pode fazer ao corpo humano? de forma prática. se eu como uma soja transgênica, ela pode desencadear que tipo de reação no meu organismo?
tassianas: imagina assim, não havia como ver um cromossomo até pouquíssimo tempo. hoje em dia, microscópios muito potentes conseguem captar mais ou menos a imagem de um cromossomo. um gene é impossível de se ver atualmente. mas como se retira uma parte de um gene e se transporta para outro? colocando proteínas diferentes que isolam ou cortam esses genes e depois implantando esses genes no organismo pra ver qual parte está sendo expressada ou qual está faltando. claro que isso é um resumo. um biotecnólogo daria mais informações. mas a partir dessa informação, a gente nota que é um processo meio às escuras, meio que na base do teste mesmo. se um gene de uma bactéria se desloca e se gruda no dna do milho, a questão que preocupa é se esses genes de bactérias que estão no milho que a gente come não podem, lá pelas tantas, num erro de duplicação ou multiplicação de dna, se deslocar pro nosso, provocando doença, reação alérgica ou outras coisas que não imaginamos ainda… resumindo, a gente não sabe o que pode acontecer no futuro, ou o que pode estar acontecendo. suspeitam, inclusive, que a intolerância ao glúten seja um desses efeitos colaterais dos transgênicos.

cozinhap: a produção orgânica hoje é cara. uma vez que o processo da transgênese deixa o produto final mais barato, do seu ponto de vista qual seria um caminho pra humanidade “se esquivar” desse ‘problema’?
tassianas: tem que se esquivar, se não a gente vai comer as safras que essas empresas quiserem e comer lixo cheio de veneno. a saída, pra mim, está na produção de alimentos familiar e orgânica. sim, ela é cara pois o acesso e a procura são menores. mas não tão cara assim. quando as pessoas, em massa, se recusarem a comer qualquer coisa, vai baratear. até lá, é só sonho mesmo.

cozinhap: no que tange à ideia de que os transgênicos podem ser a solução para a erradicação da fome em alguns pontos do planeta. considera válida?
tassianas: não, eu acho que é ao contrário. uma semente geneticamente modificada tem dono, tem patente. o dono não é o produtor, é a empresa que fez o transgênico. ela é uma variedade criada, portanto tem dono. essa planta mais forte tende a sobressair no ambiente, não dando vez pra planta de semente crioula. em breve, se perde a soberania do teu próprio alimento. quando a maioria da comida estiver em posse de grandes empresas, eles vão ditar as regras e os preços. e já fazem isso em alguma escala.

cozinhap: além do boicote, da não consumação de produtos tarjados, qual outra medida às nossas mãos, para “lutar” contra os produtos transgênicos?
tassianas: levar informação, como tu tá fazendo. indicar produtos e lugares onde se venda orgânicos, montar uma rede de amigos que se interesse pelo assunto e conversar, agir sobre. numa escala maior, produzir algo dentro de casa, o que der. se o espaço é pouco, só tempero, cebolinha, etc. isso atiça a curiosidade das pessoas, é bom pra tocá-las.

cozinhap: muita gente toma os termos “transgênicos” e “organismos geneticamente modificados” como sinônimos, mas li por aí que muita gente entende as duas expressões de forma diferente.
tassianas: olha… na minha cabeça é outro nome pra mesma coisa, eufemismo. transgênico tá manchado já. tipo, trocaram pesticida por defensivo. como te disse, o processo é diferente, mas as consequências pros organismo humanos continuam não sendo divulgadas é mesma coisa aqui. há diferença no modo como é feito a transição de gene, que aí foge um pouco do meu conhecimento. Mas, pra fins práticos, tudo a mesma coisa.

para saber mais: revista ecológicamonsanto revela que milho transgênico pode fazer mal repórter brasil – matéria demonstrando que as grandes companhias ainda lutam contra a rotulação dos transgênicos jornal o globo – matéria sobre a regulamentação em vigência, com relação aos transgênicos documentário “o mundo segundo a monsanto” – escrito, dirigido e adapatado pela jornalista francesa marie-monique robin de seu livro homônimo.

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tassiana santos é bióloga e graduanda em gestão ambiental. sua família possui um sítio com uma bela produção orgânica, da qual seu pai abastece a casa e ainda divide com seus parentes, vizinhos e amigos, por acreditar na alimentação saudável provida por este tipo de produção.

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